Vermes no cérebro
Abril 29th, 2008 at 10:57pm Ana Erthal
Sabe aquela música que contamina nossa mente por dias ou por semanas? São os brainworms ou “agentes musicais cognitivamente infecciosos”, de acordo com Oliver Sacks.
Os brainworms estão sempre presentes em mim. É engraçado porque basta um fragmento da música para que ele se hospede tranqüilamente entre os meus ouvidos e assim permaneça até que outro brainworm se instale ou o primeiro desapareça.
Há três curiosidades:
1) se eu ouço a música pela primeira vez e me “apaixono”, ele se instala instantaneamente, e preciso repetir muitas e muitas vezes até saciar a vontade de escutar aquela melodia, dominar sua letra e finalmente enjoar. Isso aconteceu com In my lady’s house do Iron and Wine, na semana passada. E com All I want is you na semana retrasada. E com Awake, na sucessiva anterior.
2) se eu conheço muito bem a música, seus acordes e suas métricas, eu posso me “apaixonar” por ela de estalo, sem intenção alguma. Isso aconteceu quando a minha playlist infinita e randômica do iTunes tocou Sentado à beira do caminho e achei a conjunção Roberto e Erasmo perfeita, compreendendo o fanatismo da massa pelos velhos jovem-guarda.
3) quase que o ‘tempo todo’ eu ouço a melodia do celular. Mas ele não toca o ‘tempo todo’. A sensação que tenho é que ela toca o ‘tempo todo’ na minha cabeça. Segundo Martin Lindstrom, o toque do celular é a melodia que mais ouvimos, atendemos em média 10 ligações por dia. Tirando o famoso “HelloMoto”, da Motorola, não há muitas coorporações explorando essa infecção ‘institucional mascarada’.
Esses pedaços de música, ou a música toda, podem disparar de maneira repetitiva e autônoma como se fosse um tique nervoso, explicou o Dr. Sacks. “Somos atraídos pela repetição; queremos o estímulo e a recompensa várias vezes, e a música nos dá”. A música é ubíqua: temos música no carro, em casa, na internet, nos bares, lojas, academias, nos ônibus, no celular, no iPod. Antigamente, pra se ouvir música era necessário ir a um concerto, uma festa, ou ter instrumentos em casa.
Na publicidade, o brainworm é o objetivo dos criadores de jingles. Eles querem infectar sua mente, “não sair da sua cabeça”, com diz Dr. Sacks, fazendo um looping neurológico irresistível. A repetição é uma técnica segura para fazer com que a mensagem seja entendida e lembrada pelo consumidor, de acordo com Martin Lindstrom. É por isso que disparamos uma seqüência automática depois de ouvir um pequeno trecho deum comercial de tevê ou apenas uma palavra que faça a co-relação.
Oliver Sacks foi citado, ano passado, no primeiro encontro do nosso grupo Tecnovisuaudiofatátil. Fiquei muito curiosa para saber de sua experiência como neurocientista e acabei lendo Alucinações Musicais. Um livro repleto de histórias reais sobre como a música está presente na nossa vida, como ela ajuda pessoas portadoras de diversas injúrias e como ela pode ser um tormento na vida de outras: há brainworms incessantes. Se você acha ruim a música que fica na cabeça, imagine aquelas pessoas que tem um iPod dentro do cérebro tocando a mesma música o tempo todo… às vezes para sempre.
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1 Comment Add your own
1. @di | Abril 30th, 2008 at 12:14 pm
Você tá falando daquilo que no mundo pop chamam de “cliclete”? Todo mundo tem isso, né? maneiro. Fiquei curioso em relaçãoao livro que você citou, o “Alucinações musicais”.
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