Crianças hiperestimuladas hipnotizadas pelo Pikachu
Julho 1st, 2009 at 07:28pm Ana Erthal
Que programa de TV você assistiu na sua infância? Eu nunca gostei muito de TV, mas era vidrada na Poderosa Iris, o que mais tarde tornou-se um problema em casa: pra quem gostava da super-heroína descendente de uma deusa, tolerar a Xuxa era abominável.
Os programas de auditório da Angélica, Xuxa e Eliana eram uma paleta de cores indistinguíveis, gritaria, luzes piscando, choro convulsivo na construção de mitos e eles estavam apenas acompanhando a tendência da mídia em provocar cada vez e sempre mais estímulos nervosos.
Taí o caso do Pikachu do Pokémon que não me deixa mentir: mais de 1200 crianças foram parar no hospital em 16 de dezembro de 1997 com crises convulsivas depois de um episódio frenético com o “choque do trovão” do desenho animado. Não, esse filme abaixo não tem o “choque do trovão”, mas mostra bem a velocidade frenética da animação e da trilha sonora. É “chocante” de qualquer forma.
Mas precisa de tudo isso? É assim que instruímos nossos filhos, é assim que eles recebem uma educação paralela e … que tipo de geração está se formando a partir desses desenhos que provocam tantas sensorialidades e estímulos?
Nos primórdios da TV existia um programa na Tupi chamado “Tia Gladys e seus bichinhos”. Além de não haver produção visual, também não tinha ensaio, não tinha chroma key, não tinha ponto eletrônico… Havia um teatro e uma simpática moça, a Gladys, contando uma história. Mas não era apenas isso. Além de contar, ela ilustrava as histórias que ia contando no momento da “contação”. E não eram histórias mainstream. Ela inventava as histórias e criava os personagens que tinham personalidade e quase vida próprias. Tive acesso ao documentário da Gladys produzido por Marina Pessanha e reproduzo dois trechos aqui: um em que podemos ver a desenvoltura de seus desenhos e outro em que ela conta a mágica de sua didática. Uma maneira simples e encantadora de entreter.
Quando deixou a tv, Gladys escreveu 38 livros, em três coleções: “Gladys e seus bichinhos”, “Mundo infinitamente pequeno” e “Histórias do meu jardim”.
Entry Filed under: Sensorialidades
5 Comments Add your own
1. Kinha | Julho 2nd, 2009 at 10:32 am
Muito legal, Anoca! Embora eu tenha crescido no auge desses programas de auditório, acho que consegui equilibrar (ou fui orientada a isso) e também aproveitar a infância de uma maneira mais educativa.
Em alguns momentos a Nena vai te pedir para assistir a programas da moda, por influência dos colegas, mas é sempre importante mostrar que a diversão não está vinculada a altas tecnologias e estímulos pirotécnicos.
Gostei do programa da tia Gladys. Não conhecia.
Bjs!!
2. Tiago | Julho 2nd, 2009 at 10:36 am
Pois é, não precisa de tudo isso, mas do jeito que as crianças estão acostumadas a tanto estímulo, receio que programas que não utilizem essa estratégia não consigam, também, cativar a audiência. De um lado, a escola, que não estimula vivalma há 100 anos; do outro, os programas de TV, videogames etc., que muito mais do que REM.
3. Marcelo Ferraz | Julho 2nd, 2009 at 11:17 am
Muito bom!
Concordo com a Kinha, que disse que deve haver um equilíbrio. Mas o problema é que essa é só a ponta do iceberg. Hoje nós somos bombardeados por estímulos, não só na televisão, mas em qualquer lugar que nós foquemos nossa atenção (no computador, no videogame, na rua, nos shoppings e até no elevador, com suas elemídias e afins!).
Isso pode parecer papo de velho (”no meu tempo, eu comprava um cachorro-quente com uma moeda!”), mas não é… Infelizmente, se nós, como sociedade, não pararmos pra pensar mais nisso, eu não sei onde isso vai parar…
4. Flavinha | Julho 2nd, 2009 at 3:09 pm
Lá vem o anerthalismo! Muito boa a comparação que vc fez eu também assistia poderosa Iris e Panteras (hahahaha). Realmente tem que rolar o filtro, tem que ter, não podemos deixar nossas crianças vendo os Backyardigans, como vc falou na palestra em BH! Apoiada! Beijocas e parabéns pelo título MESTRE!
5. Camila | Agosto 12th, 2009 at 10:41 am
Sabe? Acabei de ter um filho e é muito bom ler essas coisas pra cair na real e resistir à tentação de largar a criança em frente à “babá eletrônica” que é a TV de hoje… ela não mais encanta, ela hipnotiza. É uó!
Leave a Comment
Some HTML allowed:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <code> <em> <i> <strike> <strong>
Trackback this post | Subscribe to the comments via RSS Feed