Esgotamento
Fevereiro 9th, 2010 at 12:13am Ana Erthal
Em sua fala no CECC no ano passado, Roberto da Matta, seguindo a idéia de que “Tudo tem começo, meio e fim”, me deixou pensando se a velocidade acelerada do nosso tempo não seria a marca divisora de um final de uma época e começo de outra menos focada nos prazeres efêmeros da vida.
No último sábado, na convenção dos professores da ESPM, ouvi a teoria de que estaríamos vivendo uma fase de esgotamento que encerra ciclos históricos a cada 50 a 60 anos. Tirei a questão do esgotamento do mundo e trouxe para recortes bem precisos para pensar sobre isso. Será que estaríamos vivendo o esgotamento justamente pela quantidade do inesgotável? Ou seja, será que vivemos num mundo de tanta abundância que temos a sensação de que nada se esgota e por isso estamos passando por uma fase de esgotamento?
Quando não se tem mais do que falar, pois tudo já foi falado, quando todos os versos já foram versados, quando as canções inventadas são estrofes de outros que nela pensaram anteriormente. Um tempo em que cada coisa que se diz é apenas cópia do pensamento de outrem, um dia antes ou talvez um mês.

Se levarmos a questão do esgotamento para os valores, o que dizer do esgotamento da liberdade? Nossos pais ficaram presos na ditadura para que nós tivessemos direito à liberdade de expressão, direito ao sexo livre, direito ao divórcio, direito à participação política. E o que estamos fazendo? Esgotando nossa liberdade quando só transamos com camisinha e parceiros selecionados a dedo. Esgotando nosso vocabulário e nos expressando verborragicamente, muitos até já cansados de falar sobre mais do mesmo. E o que dizer dos relacionamentos? Um relacionamento rotulado, durante algum tempo virou alvo de deboches, agora vemos as mídias tem trabalhado narrativas que valoram os sentimentos e a responsabilidade para com as outras pessoas.Talvez seja uma era que esgote o individualismo. O indivíduo está tão angustiado em sua vida atômica que está mais inclinado a procurar práticas coletivas, em que possa alinhar interesses e compartilhar informações. Observe a sua timeline no twitter. Depois volte aqui para terminamos a conversa. Você acha mesmo que o individualismo perdura por muito tempo?
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1. Leo Cabral | Fevereiro 9th, 2010 at 9:26 am
Ana,
Concordo com a crítica ao individualismo. Esse esgotamento é uma ansiedade velada; o trampolim na linha do tempo para nos tirar da cadeira e criar coisas como o movimento Beatnik, a Tropicália, ou tritemente até mesmo um período de crescimento da extrema direita como o que culminou em 1938 na Alemanha. Muito além da crítica ao esgotamento, eu iria além. Estamos perdendo o instinto natural de detectar esse “trampolim”; dando lugar a uma apatia. Não preciso listar os exemplos, mas nossa cultura está permeada de iniciativas de padrões culturais baseados em fórmulas mercadológicas simuladas em laboratórios, como se fosse necessário ter antes de tudo um modelo de negócio rentável para criar uma cultura (e não o que vimos com o Star Wars, onde George Lucas criou algo autêntico e os negócios, merchandisings e franchisings, antes nunca tão considerados, foram crescendo e evoluindo em volta. Resumindo, Lucas assim como Tolkien entre tantos outros criaram mundos a explorar em um mundo já vazio de conquistas). Meu maior lamento é ter nascido numa geração sem um Himalaia ou Pólo norte para conquistar. Essa geração é uma geração de espectadores narcisistas.
2. Leo Cabral | Fevereiro 9th, 2010 at 9:27 am
Ana,
Concordo com a crítica ao individualismo. Esse esgotamento é uma ansiedade velada; o trampolim na linha do tempo para nos tirar da cadeira e criar coisas como o movimento Beatnik, a Tropicália, ou tritemente até mesmo um período de crescimento da extrema direita como o que culminou em 1938 na Alemanha. Muito além da crítica ao esgotamento, eu iria além. Estamos perdendo o instinto natural de detectar esse “trampolim”; dando lugar a uma apatia. Não preciso listar os exemplos, mas nossa cultura está permeada de iniciativas de padrões culturais baseados em fórmulas mercadológicas simuladas em laboratórios, como se fosse necessário ter antes de tudo um modelo de negócio rentável para criar uma cultura (e não o que vimos com o Star Wars, onde George Lucas criou algo autêntico e os negócios, merchandisings e franchisings, antes nunca tão considerados, foram crescendo e evoluindo em volta. Resumindo, Lucas assim como Tolkien entre tantos outros criaram mundos a explorar em um mundo já vazio de conquistas). Meu maior lamento é ter nascido numa geração sem um Himalaia ou Pólo norte para conquistar. Essa geração é uma geração de espectadores narcisistas.
3. Leo Cabral | Fevereiro 9th, 2010 at 9:28 am
Ana,
Concordo com a crítica ao individualismo. Esse esgotamento é uma ansiedade velada; o trampolim na linha do tempo para nos tirar da cadeira e criar coisas como o movimento Beatnik, a Tropicália, ou tristemente até um período de crescimento da extrema direita como o que culminou em 1938 na Alemanha. Muito além da crítica ao esgotamento, eu iria além. Estamos perdendo o instinto natural de detectar esse “trampolim”; dando lugar a uma apatia. Não preciso listar os exemplos, mas nossa cultura está permeada de iniciativas de padrões culturais baseados em fórmulas mercadológicas simuladas em laboratórios, como se fosse necessário ter antes de tudo um modelo de negócio rentável para criar uma cultura (e não o que vimos com o Star Wars, onde George Lucas criou algo autêntico e os negócios, merchandisings e franchisings, antes nunca tão considerados, foram crescendo e evoluindo em volta. Resumindo, Lucas assim como Tolkien entre tantos outros criaram mundos a explorar em um mundo já vazio de conquistas). Meu maior lamento é ter nascido numa geração sem um Himalaia ou Pólo norte para conquistar. Essa geração é uma geração de espectadores narcisistas.
4. Pedro Luiz | Março 8th, 2010 at 8:01 am
Ana,
enquanto houver indivíduo, haverá individualismo - felizmente!
A exacerbação do coletivo por vias transversas (in/out) pode ter levado a um esgotamento por limites superiores (não é possivel ser mais “in” além de um certo ponto, por exemplo); mas, destacar a individualidade no coletivo (como nos exemplos que você deu sobre as fantasias no carnaval), é uma parca expressão individualista, na medida em que emerge do coletivo ao mesmo tempo em que se protege nele(eu sou da turma, mas sou mais).
A expressão máxima do individualismo ocorre quando não há compromentimento dele com o coletivo, mas com respeito as leis por este impostas (comportamento que não é sociopata, nem anti-social, mas, simplesmente, diferente).
Este comportamento não pode ser propagandeado porque, se o for e obtiver adeptos, deixará de ser individual.
Talvez por isso, paradoxalmente, seja difícil percebê-lo no meio da multidão.
Vale ainda lembrar que um individualista não necessariamente precisa ser criativo; mas, quando o é e é descoberto…
…usualmente atrai a ira da mediocridade coletiva.
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