Archive for Fevereiro, 2010

Acabou o carnaval?

Juro que eu não sabia que essa coisa de blocos era tão, tão, tão movimentada no Rio de Janeiro. Pena que todos os vídeos que eu fiz no carnaval ficaram sem som, inclusive a banda do bloco paulistrioca, composto por mim, Fabíola e Hugo Calazans:”Ticotuconaocutuca, TumdumTumdum, Naoconfundacocombunda”. Pena que acabou também, ficaria mais três meses em pleno carnaval.

Como não seria indiferente à festa pagã, eis aqui minhas reflexões ainda sob influência dos pensamento de Lipovetsky.

Foi a primeira vez que eu vi tanta gente comprometida com a própria fantasia. Nos blocos, conheci vários carnavalescos, que passaram meses arrematando a indumentária e pesquisando sobre o significado de época e sua representação nos dias de hoje. Desde Ipods à Deusas Gregas com louros e ouro, gregos e macmaníacos pulavam juntos no Boitatá às 8h da manhã do domingo de carnaval. E as fantasias de PacMan? Uma turma de meninas trajavam aqueles bonequinhos pixelados, cada uma de uma cor e ainda faziam aquele clássico barulhinho “Tchurururu. Pépépé”. Muitas onomatopéias. Isso tudo simplesmente para ser diferente. Se destacar no meio dos milhares, exibindo cultura e capacidade de planejamento únicos. Todos queriam reverências por suas criações. Particularmente gostei muito do menino que estava de colchão. Ele fez furos num cochonete e se meteu ali dentro. Bem prático na hora do soninho.

Na Idade Média as festividades do tipo carnavalesco chegavam a durar três meses. Era o momento de zombar da nobreza e do clero. Lipovetsky fala sobre isso “O mundo do riso se edifica essencialmente a partir das formas mais diversas de grosserias, de aviltamentos grotescos dos rituais e dos símbolos religiosos, de travestismos paródicos dos cultos oficiais, de coroações e destronamentos bufões”. O Rei de nosso carnaval é o Momo e nossos reais gestores desfilam com mulheres sem calcinhas. As melhores fantasias da Idade Média eram as de clérigos e abades: jogando excrementos no público, levando asnos para rezar as missas nas igrejas e fazendo refrões obscenos com os hinos litúrgicos.

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Depois, a modernidade passou a suavizar os modos. Assim como o tato era considerado pervertido, o riso fácil e solto era considerado vulgar. Passou-se então a uma era em que rir era feio e o cômico perde sua característica de comédia clássica e se transforma em crítica. A mecanização da industrialização alcança também os corpos, os movimentos deveriam ser previsíveis e domesticáveis. Hoje é tudo diferente. A gente ri de tudo, tudo é motivo de gracejos e as histórias procuram o caminho do lúdico piadesco enquanto a piada vira chiste.

Se antes era ridículo ou infatil se fantasiar, hoje em dia, na era em que o indivíduo não aceita ser apenas mais um - ainda que seja carnaval - é a fantasia o motivo sério que demonstra a supervalorização individualista de roupas e de máscaras. Hoje somos muitos em um só todos os dias.

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