O homem do futuro
Há algum tempo está em voga falar sobre uma tal crise que vem assolando a comunidade, ou ao menos, os comunicadores digitais mais inquietos da websfera. Os sistemas de trabalho estão mudados, assim como o relacionamento com as marcas e sobretudo a disposição em recompensar os esforços.
Então ficamos confusos: estaríamos vivendo um esgotamento de um passado recente e precisaríamos de fato prever o futuro, ou estaríamos nós sufocando um passado não esgotado - não vivido - pela exigência efêmera da novidade futura?
Não estou bem certa de que estamos num momento de rupturas radicais - crise quer dizer manifestação violenta e repentina de ruptura de esquilíbrio. Aliás, se elas aconteceram um dia, talvez só encontre como exemplo a bomba de Hiroshima. Tudo o que sempre compôs a ordem social, em todas as escalas, desde quando somos neandertais, tem seu período certo de amadurecimento. As pessoas se acostumaram a chamar de crise planos que deram errados. Não é isso.

Talvez seja um momento de rearranjos de todos os tipos (entre tecnologias, culturas, crenças, temas, sexos, raças, economias, genes etc.) multiplicados em escala de tempo vertiginosa. Hum… talvez dessa total miscigenação consentida pela sociedade, venha a explicação de quando perdemos o controle sobre o nosso passado e porque não conseguimos mais predizer um futuro próximo.
Outro dia, num embate quase snagrento, ouvi o seguinte: “todo esse problema que temos foi porque a tradição do casamento acabou. A mulher saiu de casa, foi trabalhar e quer a mesma posição do homem na economia”. É machista, mas é uma opinião. O casamento é uma instituição e está se reinventando e procurando rearranjos para se manter viva. Mas o que é a tradição do casamento? Desde quando as noivas se vestem de branco? Desde quando se usa o buquê (essa eu sei, mas vai ficar pra depois). Desde quando se casa no civil? Desde quando precisa daquela palhaçada do senta e levanta e um ritual tão enfadonho quanto prolixo, pelamordedeus? Tudo isso tem menos de 100 anos. Tradição?
Temos que desconfiar de quando se fala de tradições milenares. Elas mudaram na semana passada, se é que elas um dia existiram e se é que elas não foram inventadas por um desconhecido anteontem. É por esse mesmo motivo que não podemos falar em rupturas, em momentos de mudança completa, achar que estamos vivendo uma crise dos tempos digitais. Tudo muda, o tempo todo.
Imagine um professor que entra em sala e coloca uma câmera filmando os alunos e eles entram numa realidade aumentada reproduzida no telão (que substituiu o quadro negro) e brincam com cubos que caem do céu do ambiente virtual, girando-os, empurrando-os, preendendo esses objetos em seus braços. Inevitavelmente vamos comparar esse professor do futuro, com o modelo cuspe e giz do passado. No meio dessa mesma aula tive “um sobressalto secreto me avisando que realmente entendi”.
Eu entendi então a crise, a angústia que atinge e paraliza algumas pessoas.
Entendi que o que não nos faz sentir como pessoas do futuro é a comparação eterna com o passado, o desejo de manter as coisas como são por mais um tempo porque não conseguimos nunca terminar nossas obras ou porque a velocidade do compartilhamento atingiu sua instantaneidade e o digital consegue mobilizar todo um mundo, ou micromundos em todo mundo.
Podemos, então acreditar que estará com o pé no futuro aquele que conseguir articular os rearranjos do presente com os próximos recursos, sem aventar rupturas drásticas - operando num tempo constante, estável e dinâmico - e sobretudo, deixando de lado as tradições e esgotando o passado.
O futuro é sempre melhor do que nós o imaginamos.
1 comment Outubro 19th, 2010